28 de out de 2008

Entrevista: Carol Teixeira


LOUCA PELA VIDA

“Pessoas mesmo são os loucos, os que são loucos por viver, loucos por falar, loucos por serem salvos (...)”. Essa é uma parte de um poema de Jack Kerouac que Carol Teixeira tem estampado na parede de sua sala. É outra maneira que Carol encontrou de transbordar, como se não bastassem as frases tatuadas em seu corpo, escritas em seu blog e em seus livros. Carol é assim, transparente. Seu corpo, seu jeito, sua casa, seus livros, tudo é ela. A escritora e filósofa de 28 anos é autora dos livros “De Abismos e Vertigens” e “Verdades & Mentiras”. É colunista da Cool Magazine e dos sites http://www.lpm.com.br/ e http://www.queb.com.br/ e editora da nova Revista do Beco. Já escreveu peças de teatro, fez programas de rádio, participou de um reallity show, viajou pelo mundo, foi dona de bar, ama a noite, Nietzche, Caio Fernando Abreu, Fred e, acima de tudo, a vida.

Tu já passaste por três cursos: Jornalismo, Direito e Filosofia. Desististe dos dois primeiros seguindo firme com o último. Uma vez tu escreveste que pra ser escritora não precisavas ser jornalista e, por isso desististe do curso. Então eu pergunto: pra ser escritora precisa ser filósofa? Qual a relação que tu vês entre a escrita e a Filosofia?

Na hora de escolhermos a faculdade que iremos cursar, as pessoas tendem a querer nos direcionar. Se tu gostas de escrever, tens que ser jornalista. Se tu gostas de argumentar, tens que ser advogada. E não é porque tu tens que ler ou escrever bastante numa profissão que isso tenha algo a ver com a literatura. Eu queria alguma coisa que abrisse minha cabeça, então pensei que a Filosofia era a opção que mais ia de encontro a esse desejo. Além disso, eu tinha já lido Nietzsche e gostado. Arrisquei e me apaixonei. Vi que era aquilo que eu queria pra mim. A Filosofia ia ao encontro da minha escrita e interferiu nela positivamente. Acho que foi a melhor escolha.

A Filosofia ia ao encontro da tua escrita por quê?

O bom escritor não pode ser muito apegado a conceitos, ele tem que ter a cabeça aberta, não pode ter medo. E a Filosofia tira um pouco desse medo do desconhecido. O Pedro Gutiérrez (artista visual e escritor cubano presente na palestra Fronteiras do Pensamento, da qual ela participara antes da entrevista) falou na palestra que o escritor é que nem uma criança que vira adulto, mas fica sendo criança ainda, porque continua fazendo as perguntas que todo mundo já cansou de fazer. E eu acho que filósofo também segue questionando. E nesse ponto eu escritora e eu filósofa nos encontramos.

Já que tu falaste em Nietsche, me conta, por que essa paixão por ele?

Porque ele é o filósofo que mais questiona. Enquanto todo mundo só construiu conceitos e sistemas, ele foi lá e destruiu o sistema de outros, contestou coisas que ninguém contestou. E não era uma polêmica vazia. O questionamento que ele tem vai de encontro com a minha personalidade. Além disso, ele falava do lado dionisíaco da vida, que é o lado irracional. Falava que o ser humano é muito apegado a moral e então destruiu a moral. E eu sou muito contra a moral. Em várias épocas da sociedade se tu analisares a moral, tu vês que é o que fode a sociedade. Não existe. É uma utopia.

Repito a mesma pergunta que fiz sobre Nietzsche, mas, dessa vez, o nome é Caio Fernando Abreu.

Pra mim, sem dúvida alguma, ele é o melhor escritor brasileiro. Ele é muito visceral. Não adianta ter aquela escrita perfeita, bonitinha, dentro dos padrões, mas que não te passa vida. Eu não gosto da escrita limpinha. Ele passa vida, passa sangue. É incomparável a qualquer outro escritor. Ele mistura vida e arte, gosto disso. E fala muito dele, deixa transparecer. É como quando eu leio Nietzsche, eu me arrepio.

Tu começaste a ler ainda pequena. Teve alguém que te influenciou positivamente nesse sentido? Como surgiu teu interesse pela escrita e pela leitura?

Pois é, eu aprendi a ler com 4 anos e com 6 eu já escrevia poesia. Eu era uma criancinha muito interessada pelas palavras. Enquanto todo mundo estava aprendendo a escrever no colégio, eu já estava lendo muito. Tinha um mundo interior muito vasto e uma coisa muito minha que eu não dividia com muita gente, então escrevia no meu diário. E eu sempre disse que queria ser escritora. Enquanto outras gurias admiravam atrizes e modelos na adolescência, meu ídolo era Paulo Francis. Pra que isso acontecesse, teve duas pessoas chaves. Primeiro a minha mãe. Ela via meu potencial e me incentivava me dando muitos livros. A outra pessoa foi um professor que eu tive dois anos seguidos no Farroupilha, o Miguel.

Tendo em vista o tema beleza X inteligência, tu sofreste algum tipo de preconceito por ser bonita e inteligente ao mesmo tempo, tal como ocorreu de certa forma com a candidata à prefeitura, Manuela D’Ávila?

As mulheres crescem com a idéia de dar valor pra sua própria beleza. Eu acho que tem que dar valor, mas não é só isso. A minha mãe me fez crescer tendo em mente a superioridade da questão intelectual sobre as outras. A gente vive num mundo obcecado pela superfície das pessoas. Ai de ti de ser bonita e inteligente, não pode. Ou é uma coisa ou outra. Quanto ao preconceito, no início teve um certo espanto sim, porque as pessoas pensam que filósofo tem uma cara e escritor tem outra. Então se tu não tens aquela cara, as pessoas começam a questionar. No inicio eu ouvia muito assim: “Quando eu te vi eu nunca imaginei que tu escrevias como tu escreve”. Mas por que não imaginou? Se eu fosse feia imaginaria? Depois comecei a ver que é melhor ser bonita do que ser feia. É um ponto positivo. Então comecei a rir disso. Hoje em dia não existe mais.

Quando é que sai teu próximo livro e sobre o que vai ser?

Ia ser esse ano, mas aí eu resolvi dar tempo pra ele tomar a forma que ele tinha que tomar. Não estava com a cara que eu queria. Não sabia se ia ser conto ou romance, qual o tipo de narrativa, enfim, não sabia como contar a história que eu tinha na mão. E como a editora me deu mais tempo, decidi não publicar esse ano. No momento em que tomei essa decisão, veio exatamente a forma como eu tinha que escrever, eu só precisava de calma. Agora já sei, vai ser um romance, meu primeiro. Mandei o primeiro capitulo pro Miguel dar uma olhada. É pra Feira do Livro do ano que vem.

O que tu podes adiantar?

O nome vai ser “A obscena Srta. C.”. Trata muito essa questão da moral, do certo, do errado. A personagem Cecília se coloca numa questão muito duvidosa moralmente, o que vai render muitas opiniões contrárias.

Depois que tu releste teu 1º livro (“De Abismos e Vertigens”) tu achaste ele infantil. Como tu vês a evolução em relação ao teu 2º livro (“Verdades e Mentiras”)?

Tu vês que louco, eu achava infantil, não acho mais. Eu o reli esses dias e adorei. Ele é uma espécie de grito (de liberdade). As pessoas que estão nessa idade que eu escrevi o livro se identificam muito, porque é uma fase que tu questiona muita coisa e esse livro é puro questionamento, muito mais que o outro. Quando eu fiz o “Verdades e Mentiras” eu estava muito apegada a ele, então eu o achei muito superior ao “De Abismos e Vertigens”. Mas, na verdade, vendo agora, eles são diferentes.Tem um colega meu de oficina literária que me disse que no futuro eu podia me arrepender, pois eu me expus muito no primeiro livro. Aquele livro sou eu. Quem o lê me conhece, não tenho mais nada pra esconder. No “Verdades e Mentiras” as minhas opiniões estão de uma forma mais sofisticada e minhas crônicas estão um pouco menos ansiosas.

Tu achas que quando as pessoas te lêem elas te conhecem mais intimamente?

Me dizem muito isso. Que quando lêem meu blog é como se elas me conhecessem. E me conhecem. Eu falo muito com meus leitores, fico amiga das pessoas. Quando vejo estou contando minha vida pra elas. Eu adoro me expor. Não é que seja exibida, é uma necessidade de transbordamento.

Em alguns textos teus tu disseste que tem uma ânsia pelo conhecimento e pela escrita e que, às vezes, te sentes culpada por estar fazendo outra coisa que não seja escrever. Tu descreveste a escrita como tua prazerosa condenação. Como funciona esse sentimento pra ti?

Eu transcendi um pouco isso, porque era algo que me torturava muito. Eu não sou uma pessoa disciplinada e me cobrava que fosse, então me dava esse sentimento de culpa. Tem muito esse papo de que inspiração não existe, que o que existe é trabalho. Eu não acho. Acho que existem sim esses momentos. No momento em que estou inspirada, mas que eu não estou tendo a possibilidade de escrever, tenho bloquinhos onde anoto minhas idéias. Tenho na bolsa, no carro, no lado da cama. Então em qualquer momento eu tenho onde anotar minhas idéias. Esses são os momentos de inspiração. O momento de trabalho é quando eu tenho a possibilidade de trabalhar, daí eu pego meus bloquinhos que fazem com que eu não perca as idéias. O que me da agonia é perder idéias. Eu queria ser mais disciplinada, mas não sou, então não vou ficar lutando contra isso. Eu não perco as idéias e é isso que importa. Assim, quando eu tenho tempo e disposição eu escrevo.

Em teus textos tu falas muito sobre amor, paixão, aprisionamento, libertação. Depois de casar como ficou isso?

Pois é né, ninguém acreditou que eu casei. Eu acho que só casei e sou tão feliz no meu relacionamento porque descobri uma pessoa que é igual a mim. Se eu fosse homem eu ia ser ele e se ele fosse mulher ia ser eu. Alma gêmea total. Ele também (Fred Endres - guitarrista da Comunidade Jiu-Jitsu e produtor musical) trabalha com criação que nem eu, então ele tem uma vida desregrada que nem a minha. A gente não tem horário pra fazer as coisas, a gente faz o que quer na hora que quer, e isso me dá a sensação de liberdade. Quando tu achas uma pessoa assim tu não precisas daquele conceito básico e raso de liberdade que é o oposto de um certo aprisionamento do casamento. Transcende um pouco isso. Tu achas liberdade dentro do casamento.

Muda o conceito de liberdade?

Muda. Parece idiota falar alma gêmea, mas é verdade, porque é uma pessoa muito igual a mim. Eu não concordo com o velho ditado de que os opostos se atraem. No momento que tu tem afinidade, tu achas liberdade dentro daquela relação. Os opostos podem até se atrair, mas quem fica junto são os que têm grandes afinidades. Acho muito possível tu estar casada, num casamento legal e estar livre. É uma grande liberdade tu estar numa escolha consciente e feliz naquela escolha.

Uma citação de Gide diz que “entre 100 caminhos, a gente tem que escolher apenas um e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove”. O caminho que tu escolheu foi bom? Quais outros caminhos tu escolheria?

A escrita foi o melhor caminho profissional sem dúvida alguma. Claro que fico pensando como seria “se” várias coisas, mas eu soluciono isso através da escrita. Vivo muito através dos personagens que eu crio. O caminho que eu escolhi é o melhor caminho que eu podia ter escolhido. Acho que as coisas aconteceram muito na hora certa na minha vida, eu sou muito feliz com a vida que eu tive e com a vida que eu tenho, não tenho arrependimentos. Mas eu gostaria de viver outras vidas sim. Não sei te dizer quais, mas eu poderia ser muitas coisas. Eu tento fazer o máximo que eu posso numa vida só.

Por que tu escreveste que nasceu época errada?

Eu acho que eu nasci da época da sociedade errada. Eu ia ter adorado ter nascido naquela época do Tarso de Castro, do Pasquim, daquela galera boemia e inteligente. Era uma época de efervescência cultural muito grande e, hoje em dia, não tem mais isso. Não era pela questão política, que não me interessa. Eu acho que hoje os jovens são muito pouco cultos e não buscam cultura. Eu amo cultura e não entendo como tem gente que não a consome, gente alienada. Essa é a chamada geração fragmentada, cresceu com a Internet, tem mais conhecimento, mas pouco aprofundamento.

Para escrever teus contos tu te inspiraste em algum outro autor?

Eu não me inspiro diretamente em ninguém. Se me inspiro, é inconsciente. Eu acho que eu acabo pegando um pouco (inconscientemente) dos autores que eu gosto, do Caio, por exemplo. Mas não é porque é meu ídolo que vou tentar me inspirar nele. Eu gosto também do Milan Kudera, que eu acho um romancista muito bom. Mas eu tenho uma maneira muito minha de escrever, um estilo e uma linguagem bem definidos. Se tu lês um conto meu tu vês uma unidade entre eles.

Quando acontece o próximo Papo Cabeça?

Tô bem envolvida com a Revista do Beco (revista criada e editada pela Carol que circula no Porão do Beco, em lojas e cafés). O Léo que apresenta comigo está editando a Revista Cidade B. Então a gente está dando um tempo. Mas vão ter outros projetos. Vai ter um projeto com a Revista do Beco e com o Jornal Vaia, vamos fazer um mega sarau no Beco, um negócio bem maior que o Papo Cabeça.

E quanto ao projeto do filme Amores Nus?

Ia ser o filme, só que daí chegou uma atriz de São Paulo, a Bruna Thedy, uma produtora, que estava interessada nas minhas peças. Então me dei conta que eu tinha um roteiro de um filme que poderia muito bem ser uma peça, porque tem muito dialogo. Daí eu mandei e ela amou e está vendo quem vai dirigir. Mas não desisti do filme. É que demora, é uma coisa que a gente fala, mas é a longo prazo.

De que se trata?

São duas pessoas que se encontram numa noite e vão pra uma casa. E nessa casa rola muito sexo e muito papo profundo.

BATE E VOLTA

FILOSOFIA É: questionamento.
ESCREVER É: o que me salva da loucura.
VIAJAR É: uma espécie de possibilidade de viver outra vida.
TATUAGEM É: mais uma das formas que eu tenho de transbordar.
AMAR É: a melhor coisa do mundo.
LIBERDADE É: relativa. LER É: quase melhor que escrever.
VIVER É: um eterno aprendizado.
CAROL TEIXEIRA É: a pessoa mais intensa e hiperativa que eu conheço.
DESAMADURECER É: a pós – graduação do ser humano.
UM ENTRESSENTIMENTO: entre a melancolia e a extrema plenitude.
MELHOR LEMBRANÇA: eu vendo o mar da Grécia (sendo que eu odeio o mar).
PIOR LEMBRANÇA: qualquer insônia minha.
SONHO: não tenho sonhos, tenho objetivos.
VÍCIO: chocolate (Nutella).
CONSUMO: livros.
LIVRO: “Os Dragões não Conhecem o Paraíso”, Caio Fernando Abreu.
FILME: “E Sua Mãe Também”, Alfonso Cuarón.
MÚSICA: “My Baby Left Me”, Rox.
FRASE: “Torna-te quem tu és”, Nietzsche.
(Entrevista realizada para a cadeira de Jornalismo de Variedades - publicada no blog http://www.epravariar.blogspot.com/ e no site www.e-blogue.com)

8 comentários:

  1. Linda, passando para dizer que estou de volta!

    Blog lindo e bom como sempre viu??
    Beijão!

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  2. Uhuuuu arrasou!
    Adorei tuas perguntas, muito bem colocadas. E a entrevistada soube conduzir também!
    Show pretinha
    ó um link meuzinho aí
    http://jornalistalsd.blogspot.com/2008/02/jota.html

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  3. Figura interessantíssima! Pessoas com esse tipo de "liberdade" são difícieis de se encontrar. Bjus.

    http://so-pensando.blogspot.com

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  4. Uau que chique!! Parabéns pela entrevista, muito boua e ela parece ser muiti simpatica tb. ;)

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  5. Adorei a entrevista. E não é só isso! Eu tenho algo em comum com a entrevistada! "VÍCIO: chocolate (Nutella)." AAAAH!!! :PPPP

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  6. o tamanho ficou bom, ta otimo! no final tu teve q tirar mta coisa?? e a nota sai qnd?? hehe
    boa sortee
    beijuuu xD

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  7. Good evening there! Would you be bothered if I share your blog with my work group? There are various persons whom I believe could really grasp your matter. I would appreciate it if you possibly will tell me about it . Thanks

    Before I go, give permission me thank you for your patience with my English as (I'm confident you have figured this at this moment ,), English is not my principal language so I am using Google Translate to figure out what to write down what I sincerely want to voice.

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  8. Splendid Column, Thank you

    As a final point , give permission me thank you for your patience with my English as (I'm confident you have figured this at this moment ,), English is not my original tongue so I am using Google Translate to form out how to note down what I really want to write .

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